quinta-feira, 27 de outubro de 2011


Poema de Carlos Drummond de Andrade

A PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.















Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Poema de Sebastião Uchoa Leite
 
TRÍVIO

1.1  O grafo da letra
      A letra grafada
      O grifo da letra.

1.2  O cravo da língua
      A língua cravada
      O crivo da língua.

2.1 A prega do verso
      O verso pregado
      A praga do verso.



2.2 A crosta do poema
      O poema crestado
      A crista do poema.

3.1 O trevo da arte
      A arte travada
      O travo da arte.

3.2 A droga do tempo
      O tempo dragado
      A draga do tempo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Poemas de Paulo Leminski

Ouverture la vie en close

    em latim
“porta” se diz “janua”
   e “janela” se diz “fenestra”

    a palavra “fenestra”
não veio para o português
    mas veio o diminutivo de “janua”,
“januela”, “portinha”,
    que deu nossa “janela”
“fenestra” veio
    mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
    de “fenestra”, veio “fresta”,
o que é coisa bem diversa.

    já em inglês
“janela” se diz “window”
    porque ela entra
o vento (“wind”) frio do norte
    a menos que a fechemos
como quem abre
    o grande dicionário etimológico
dos espaços interiores




INVERNÁCULO

(3)

    Esta língua não é minha.
qualquer um percebe.
    Quando o sentido caminha,
a palavra permanece.
    Quem sabe mal digo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
    Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
    Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
    uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
    O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
    eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Confira o site da ReVisão no link http://www.rerevisao.com.br/



Estamos com preços promocionais!